Entre a Sobrevivência e o Sofrimento: O Dilema do Planeamento Familiar em Angola



Eu Só Queria Descansar o Meu Corpo — A Realidade de uma Mãe Angolana

O testemunho de uma mãe de oito partos revela os desafios da saúde reprodutiva, as desigualdades no acesso aos serviços e a urgência de cumprir o ODS 3 – Saúde e Bem-Estar.

Entre pobreza, perdas maternas e complicações de saúde, a história de Luísa expõe as fragilidades do sistema de saúde reprodutiva em Angola.



Planeamento Familiar em Angola: Direito, Risco e Responsabilidade


Uma investigação sobre saúde da mulher, acesso desigual aos serviços médicos e a necessidade de reforçar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 3 e 5.

Introdução

Saudações a todos.

Eu sou Sofonie Dala, jornalista investigativa de Angola, e hoje trago um tema urgente: a saúde da mulher.

A mortalidade materna e as complicações relacionadas à saúde reprodutiva continuam a afetar milhares de mulheres em África. O acesso ao planeamento familiar é um direito fundamental, mas também levanta preocupações quando surgem efeitos adversos e falhas no acompanhamento médico.

Esta reportagem enquadra-se nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável:

  • ODS 3 – Saúde e Bem-Estar

  • ODS 5 – Igualdade de Gênero

  • ODS 1 – Erradicação da Pobreza

Hoje conversamos com Luísa, 39 anos, mãe de oito partos, que partilha o seu testemunho sobre planeamento familiar, pobreza, desafios estruturais e complicações de saúde.

Entrevista

Entrevistadora – Sofonie Dala:
Hoje estamos com a senhora Luísa. Pode apresentar-se para o nosso público?

Luísa:
Olá, eu sou a Luísa. Vou falar do planeamento familiar. O planeamento familiar é bom, mas também tem as suas consequências.

Eu faço planeamento familiar há três anos. Na primeira vez usei pílulas. Mas quando eu entrava no período menstrual, saía muito sangue com muitas bolas de sangue.

Falei com a doutora que me atendia. Ela disse que o planeamento é mesmo assim, que também tem as suas consequências.

Aqui em Angola fazer planeamento familiar não é muito vantajoso.


Sobre acesso à informação

Se o paciente chega cedo na consulta, tem direito a uma palestra que fala sobre todos os tipos de planeamento e os seus problemas.

Mas no caso de mulheres pobres como eu, devido ao custo de vida, alimentação e estudo dos filhos, não somos recomendadas a fazer muitos filhos.


Sobre sua história materna

Eu sou mãe de oito partos. Enterrei três filhos e fiquei com cinco vivos.

A minha vida é um grande desafio. Colocar os meus filhos na escola é muito pesado. As propinas são caras. Onde vivemos não há escolas públicas, apenas colégios privados com custos muito elevados.

Essas são algumas das razões que me levaram a fazer planeamento familiar.

Eu não aconselharia as pessoas a fazerem, porque tem sempre uma consequência.


Mudança de método e agravamento da saúde

Troquei o tipo de planeamento, mas já estava muito adoentada.

Voltei à consulta, mas já não era a mesma pessoa. Não me sentia eu mesma. Fiquei muito doente.

A médica disse para fazer outra consulta para ver onde está o problema.


Pergunta: O planeamento é gratuito?

Luísa:
É gratuito, mas nem sempre. Há períodos em que você tem que pagar.

Se você vai no meio do mês e encontra que as pílulas ou as injeções acabaram, tem que ir na farmácia comprar com o seu próprio dinheiro.

Às vezes a falta de dinheiro também se torna um obstáculo.


Sobre os sintomas atuais

Entrevistadora: Neste momento não se encontra bem de saúde devido ao planeamento?

Luísa:
Sim, não me encontro bem. Das duas vezes que apanhei a injeção na coxa fiquei logo doente.

Entrevistadora: Pode mostrar onde foi?

Foi aqui na perna, um pouco acima do joelho.

Às vezes também apanho injeção no braço ou nas nádegas.


Sintomas relatados

Tenho hemorragia.

Sinto muita dor ao redor da coluna, no abdómen, calafrios.

Depois de dois dias da injeção fiquei doente com dores terríveis.

Perdi muito peso em duas semanas.


Sobre acompanhamento médico

Voltei ao hospital. Disseram que preciso marcar uma grande consulta. Só isso. Não faço a mínima ideia do que se trata.

Continuo a sentir-me muito mal. Estou cheia de dores na parte da frente, atrás, na coluna, por todo o corpo.


Sobre Hepatite B

Entrevistadora: Da última vez falou sobre hepatite B. Como está?

Luísa:
Já superei este problema graças a Deus.

Quando peguei esta doença eu tinha um bebé recém-nascido. Infelizmente ele não sobreviveu.

Na gravidez seguinte fiz análises, acusou hepatite B. Fiz tratamento.

O meu bebé nasceu saudável e está a crescer bem.

Também fiz tratamentos tradicionais caseiros, como raízes de coqueiro e raízes de mangueira.


“Quando voltei para fazer outra análise deu negativo.


Análise Jornalística – Aplicação dos ODS

Este testemunho levanta questões críticas:

ODS 3 – Saúde e Bem-Estar

  • Necessidade de acompanhamento médico adequado após administração de contraceptivos

  • Investigação de hemorragia persistente, febre e perda de peso

  • Garantia de consultas especializadas acessíveis

ODS 5 – Igualdade de Gênero

  • Pressão socioeconómica sobre mulheres para limitar filhos

  • Responsabilidade desproporcional sobre a mulher no planeamento

ODS 1 – Erradicação da Pobreza

  • Falta de escolas públicas aumenta pressão financeira

  • Custo de medicamentos quando o sistema público falha


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